Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop

1911–1979 · viveu 68 anos US US

Elizabeth Bishop foi uma poeta americana conhecida por sua precisão imagética, seu tom confessional e sua observação minuciosa do mundo. Sua obra, muitas vezes disfarçada de simplicidade, explora temas como viagem, deslocamento, a natureza e a condição humana com uma profundidade intelectual e emocional notáveis. Bishop é celebrada por sua habilidade em capturar a realidade com clareza e compaixão.

n. 1911-02-08, Worcester · m. 1979-10-06, Boston

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A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto)

:

One Art
Elizabeth Bishop

The art of losing isn"t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn"t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother"s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn"t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn"t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan"t have lied. It"s evident
the art of losing"s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Elizabeth Bishop foi uma poeta americana, nascida em Worcester, Massachusetts, e falecida em Boston. Ela é considerada uma das grandes vozes da poesia americana do século XX. Sua obra é escrita em língua inglesa.

Infância e formação

Bishop teve uma infância marcada pela perda precoce dos pais. Sua mãe foi internada em um asilo psiquiátrico quando Elizabeth era muito jovem, e seu pai faleceu quando ela tinha apenas oito anos, o que a levou a ser criada por sua avó paterna em Nova Escócia, Canadá. Essa experiência de deslocamento e perda influenciou profundamente sua sensibilidade poética.

Percurso literário

Bishop iniciou sua carreira poética na universidade, onde se tornou amiga de Marianne Moore, uma poeta que a influenciou significativamente. Sua obra, embora prolífica em termos de qualidade, foi publicada com uma certa parcimônia, refletindo seu rigor e sua busca pela perfeição. Ela foi a poeta laureada dos Estados Unidos (Poet Laureate Consultant in Poetry to the Library of Congress) de 1949 a 1950.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As coletâneas mais importantes de Elizabeth Bishop incluem "North & South" (1946), "A Cold Spring" (1955), "Questions of Travel" (1965) e "Geography III" (1976). Sua poesia é caracterizada pela observação detalhada, pela precisão descritiva e por um tom muitas vezes irónico e auto-depreciativo. Ela aborda temas como a viagem, a geografia, a perda, a identidade e a relação do ser humano com o mundo natural. Seu estilo é conhecido pela clareza, pela musicalidade sutil e pela capacidade de evocar emoções complexas através de imagens concretas. Bishop frequentemente utilizava o verso livre, mas com uma estrutura e um ritmo cuidadosamente elaborados.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bishop viveu um período de intensas mudanças sociais e culturais nos Estados Unidos. Sua obra, embora pessoal, dialoga com questões de identidade, exílio e a experiência de ser uma "estrangeira" em diferentes contextos, reflexos de suas longas estadias no Brasil e em outros países. Sua poesia é vista como uma ponte entre o modernismo e as tendências pós-modernistas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Bishop teve um relacionamento longo e significativo com Lota de Macedo Soares, uma arquiteta e urbanista brasileira, com quem viveu por muitos anos no Brasil. Essa experiência no Rio de Janeiro foi crucial para sua vida e obra, inspirando muitos de seus poemas mais conhecidos. Sua vida foi marcada por uma busca por um "lar" e por uma reflexão sobre a experiência do exílio voluntário.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora admirada por muitos poetas e críticos em vida, Elizabeth Bishop ganhou maior reconhecimento póstumo. Seus prêmios incluem o Putnam Prize e o National Book Award. Sua obra é hoje considerada um cânone da poesia americana, influenciando diversas gerações de poetas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por Marianne Moore e Walt Whitman, Elizabeth Bishop, por sua vez, influenciou poetas como Seamus Heaney e Frank Bidart. Seu legado reside na sua capacidade de fundir a observação minuciosa do real com a profunda reflexão existencial, estabelecendo um padrão de excelência para a poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bishop é frequentemente analisada sob a ótica da sua "poética da viagem" e da sua "visão de estrangeira", explorando a relação entre o observador e o observado, o familiar e o exótico. Sua poesia convida a uma contemplação atenta da realidade, desvelando a beleza e a complexidade do quotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Elizabeth Bishop era conhecida por sua discrição e por sua aversão à autopromoção. Sua relação com Lota de Macedo Soares foi uma parte fundamental de sua vida, inspirando poemas como "Sotaque" e "Ouvir". Ela também era uma observadora perspicaz do comportamento humano e da natureza.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Elizabeth Bishop faleceu em 1979, após uma longa batalha contra o câncer. Sua obra continua a ser amplamente publicada, estudada e traduzida, consolidando seu lugar como uma das mais importantes poetas do século XX.

Poemas

4

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto)

:

One Art
Elizabeth Bishop

The art of losing isn"t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn"t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother"s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn"t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn"t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan"t have lied. It"s evident
the art of losing"s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

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Uma arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.



5 062

O banho de xampu

Os liquens - silenciosas explosões
nas pedras - crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guardia
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
- Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.

2 824

Chegada em Santos

Eis uma costa; eis um porto;
após uma dieta frugal de horizonte, uma paisagem:
morros de formas tão práticas, cheios - quem sabe?
[de autocomiseração,
tristes e agrestes sob a frívola folhagem,
uma igrejinha no alto de um deles. E armazéns,
alguns em tons débeis de rosa, ou de azul,
e umas palmeiras, altas e inseguras. Ah, turistas,
então é isso que este país tão longe ao sul
tem a oferecer a quem procura nada menos
que um mundo diferente, uma vida melhor, e o imediato
e definitivo entendimento de ambos
após dezoito dias de hiato?
Termine o desjejum. Lá vem o navio-tênder,
uma estranha e antiga embarcação,
com um trapo estranho e colorido ao vento.
A bandeira. Primeira vez que a vejo. Eu tinha a impressão
de que não havia bandeira, mas tinha que haver,
tal como cédulas e moedas - claro que sim.
E agora, cautelosas, descemos de costas a escada,
eu e uma outra passageira, Miss Breen,
num cais onde vinte e seis cargueiros aguardam
um carregamento de café que não tem mais fim.
Cuidado, moço, com esse gancho! Ah!
não é que ele fisgou a saia de Miss Breen,
coitada! Miss Breen tem uns setenta anos,
um metro e oitenta, lindos olhos azuis, bem
simpática. É tenente de polícia aposentada.
Quando não está viajando, mora em Glen
s Falls, estado de Nova York. Bom. Conseguimos.
Na alfândega deve haver quem fale inglês e não
implique com nosso estoque de bourbon e cigarros.
Os portos são necessários, como os selos e o sabão,
e nem ligam para a impressão que causam.
Daí as cores mortas dos sabonetes e selos -
aqueles desmancham aos poucos, e estes desgrudam
de nossos cartões-postais antes que possam lê-los
nossos destinatários, ou porque a cola daqui
é muito ordinária, ou então por causa do calor.
Partimos de Santos imediatamente;
vamos de carro para o interior.
(tradução de Paulo Henriques Britto)
:
Arrival at Santos
Elizabeth Bishop
Here is a coast; here is a harbor;
here, after a meager diet of horizon, is some scenery:
impractically shaped and--who knows?--self-pitying mountains,
sad and harsh beneath their frivolous greenery,
with a little church on top of one. And warehouses,
some of them painted a feeble pink, or blue,
and some tall, uncertain palms. Oh, tourist,
is this how this country is going to answer you
and your immodest demands for a different world,
and a better life, and complete comprehension
of both at last, and immediately,
after eighteen days of suspension?
Finish your breakfast. The tender is coming,
a strange and ancient craft, flying a strange and brilliant rag.
So that's the flag. I never saw it before.
I somehow never thought of there being a flag,
but of course there was, all along. And coins, I presume,
and paper money; they remain to be seen.
And gingerly now we climb down the ladder backward,
myself and a fellow passenger named Miss Breen,
descending into the midst of twenty-six freighters
waiting to be loaded with green coffee beaus.
Please, boy, do be more careful with that boat hook!
Watch out! Oh! It has caught Miss Breen's
skirt! There! Miss Breen is about seventy,
a retired police lieutenant, six feet tall,
with beautiful bright blue eyes and a kind expression.
Her home, when she is at home, is in Glens Fall
s, New York. There. We are settled.
The customs officials will speak English, we hope,
and leave us our bourbon and cigarettes.
Ports are necessities, like postage stamps, or soap,
but they seldom seem to care what impression they make,
or, like this, only attempt, since it does not matter,
the unassertive colors of soap, or postage stamps--
wasting away like the former, slipping the way the latter
do when we mail the letters we wrote on the boat,
either because the glue here is very inferior
or because of the heat. We leave Santos at once;
we are driving to the interior.
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